terça-feira, 26 de junho de 2012

Qual é o segredo do engajamento?

Há uns anos que escrevo neste blog – não parece, não é? Quando comecei, eu tinha identificado 3 temas que sabia serem os mais difíceis de tratar: política, religião e futebol. Acabei por falar um pouco mais sobre os dois primeiros. O terceiro passou batido ou foi apenas superficialmente abordado porque, francamente, estou um pouco “nem aí”.

Mas, no meio desses vários textos, de alguma forma eu sempre tentei falar de coisas que pudessem gerar alguma discussão saudável, por mais espinhoso que fosse o tema. E um grande mistério é tentar entender o que provoca o engajamento das pessoas, o que as faz dar aquele passo adicional que separa os meros leitores/espectadores dos comentadores/contribuintes. E depois entre comentadores/contribuintes e atores/participantes. Porque os temas aqui abordados acabam por ter como único intuito de provocar alguma mudança, seja ela qual for (espera-se que seja positiva, pelo menos).

Embora não haja muito segredo – para gerar interação é melhor tratar de temas polêmicos – é difícil acertar na escolha do tema polêmico. Do ponto de vista de quem escreve, são todos temas polêmicos, não é? Afinal de contas, se ele decidiu escrever sobre o assunto é porque acha suficientemente pertinente, não é? Mas do outro lado do computador, não é bem assim.

O texto que suscitou mais discussão até agora – e de longe – foi o texto sobre o laicismo no ensino público. Diretamente ou indiretamente, foi o texto que gerou mais comentários, discussões, brigas – em alguns círculos, gargalhadas – em outros círculos, sugestões, etc.

O outro tema que gerou discussão foi a política. Lembro-me que o texto sobre a publicidade comparativa em campanhas políticas gerou alguma discussão.

Tanto no caso da religião com o no da política, fico sempre fascinado pelo grau de envolvimento e fervor das pessoas – contra e a favor. Os dois “lados” não poupam energia para defender o seu ponto de vista, para tentar convencer o “inimigo”. No caso da religião a postura é compreensivelmente mais “orgânica” por se tratar de uma questão de fé. Como sou confessadamente cínico, tendo sorrir esperançadamente, pensando no dia em que essa energia será gasta na resolução dos problemas mais urgentes da humanidade – que, convenhamos pragmaticamente, não são religiosos nem políticos e muito menos, futebolísticos. E se a palavra “humanidade” vos parecer muito distante (acontece), basta olhar para o nosso redor para encontrar algum “problema” bem perto, algo tangível como os sem-abrigo, as crianças que trabalham nos semáforos, a educação, a pobreza, a falta de civismo e de ética, o consumismo, a falta de inclusão, o sexismo/racismo/nacionalismo e outros ismos, o meio ambiente e os impactos climáticos da sociedade de consumo, as energias renováveis, a tecnologia que vai salvar o mundo, etc (todos temas que foram abordados aqui em algum momento). Porque esses temas não geram tanto engajamento quanto a religião, a política ou o futebol?

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Comunicação e marketing criam necessidades?

Num final de semana de almoço de família + amigos, acabamos por nos envolver numa discussão (saudável, sem briga. Sim é possível J) sobre essa frase que eu tanto ouvi e ouço: o marketing/comunicação é capaz de criar necessidades nos consumidores. Opinião pessoal: é uma das maiores falácias que os marqueteiros deste planeta conseguiram plantar na cabeça dos demais mortais. E olhem lá que eu trabalho com diversas disciplinas de comunicação e marketing há uns 15 anos, mais ou menos. Tudo empírico, pois não é a minha formação.

Então porque é uma falácia? Não quero me apegar ao lado semântico/fundamentalista da palavra necessidade pois não é disso que se trata. Apenas gosto que as coisas sejam claras. Que o marketing e a comunicação podem influenciar comportamentos e padrões de consumo, não tenho a mínima dúvida. Mas existe uma diferença gigantesca entre criar necessidades e influenciar comportamentos.

Dizem que o exemplo sempre empobrece, mas às vezes é a melhor forma de explicar um conceito: um careca como eu nunca precisará de um pente. Esse é um fato. Não existe marketing ou comunicação que me convença disso. Mas até falando contra mim, posso até imaginar que me deixe convencer por alguma publicidade que o pente X-21B é “O PENTE” que vai resolver os meus problemas (irão certamente apelar para algum sentimento de baixa autoestima causado pela falta de cabelo). Mas rapidamente vou “usar o tal pente” e descobrir que...afinal, o jovem aqui continua careca e, consequentemente, sem necessidade nenhuma de um pente. Agora, o que pode acontecer é que a minha do pente X-21B seja a manifestação latente de outra necessidade: ter a careca coberta de cabelos. Nesse caso a empresa poderia me oferecer outros produtos – loções capilares, perucas, topetes, etc – e aí, somente aí, eu precisaria de um pente. Ou seja, não se criam necessidades. Detectam-se necessidades! O marketing/comunicação mais eficiente é aquele que melhor estuda – e consequentemente, conhece – o potencial cliente, para melhor satisfazer as suas necessidades (evidentes ou latentes) e assim influenciar o seu comportamento. E saliento que não reduzo necessidades a consumo de tangíveis, ok? Todos os dias “compramos” produtos, mas também compramos ideias, conceitos, posicionamentos políticos e sociais. A lógica é absolutamente a mesma para qualquer um desses campos.

No fim do dia, os marqueteiros usam e abusam – infelizmente, na minha opinião – dessa fábula, porque sabem que enquanto os seus clientes acreditarem, eles terão trabalho. Eu, inclusive! Simples assim.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

As corporações, a especulação na bolsa e o caradelivro

16 bilhões de dólares captados na abertura de capital do caradelivro (sim, teimo em chamar aquela rede assim...). Mas já vamos voltar a esse assunto.

Antes disso vou falar das corporações. Ou empresas. Ou ainda melhor, das pessoas jurídicas. O termo em si é fascinante e parte de um único pressuposto: dotar as empresas de personalidade humana, fazendo assim com que elas tenham acesso aos mesmo direitos que as pessoas físicas – não poder ser privada de vida, liberdade e propriedade, sem alguns processos/passos que garanta justiça do julgamento. Um pouco estranha a comparação entre pessoas e empresas, para não dizer injusta, mas adiante. Fascinante também é que nos EUA essa coisa da “incorporação” foi um aproveitamento de uma emenda da constituição - a 14ª - destinada a garantir cidadania aos negros. De garantir liberdade e direitos a ex-escravos, para proteção de empresas é um salto de loucos, não?

E desde quando uma empresa é um corpo? A vantagem dessa belíssima jogada é que as empresas é que “pagam” quando seus dirigentes – que são pessoas, essas realmente donas de corpos de carne e osso – são incompetentes ou desonestos. E quando digo que “as empresas é que pagam” é um belo eufemismo. Quando uma empresa fecha ou sofre um downsizing, outros corpos são despedidos. Os corpos dos ex-dirigentes normalmente se mantêm intactos...quando não recebem bônus gigantescos. Catch my drift?

Continuando.

Depois disso inventaram que a corporação podia ser dividida em partes infinitesimais e vendida para quem acreditasse na sua capacidade de gerar riqueza. Até aí não vejo nada de errado. O funcionamento me pareceu suficientemente simples: se eu acredito na empresa A, posso comprar ações dela e, quando no final do ano ela apresentar os seus resultados – que espero que sejam positivos – parte desse lucro vem para o meu bolso. É justo, pois eu terei dado o meu dinheiro para ajudar a alavancar esse resultado. É a recompensa que eu – investidor – tenho por ter apostado no futuro da empresa. E esse resultado, esse desenvolvimento é tangível. Ele se manifesta com criação de empregos, riqueza, aumento de consumo, mais investimento em pesquisa e desenvolvimento de novos e melhores produtos, etc, etc.

Onde a porca torce o rabo é quando o crescimento da empresa não entra na valoração da ação, quando o preço da ação apenas sobre ou desce pela simples lógica de mercado que diz que quando a demanda é alta e o produto é raro, o preço sobe. Nesse caso o produto é a própria ação e não o que a empresa faz ou a sua solidez econômica. Ou seja, em absoluto, a ação de uma empresa pode subir mesmo se a empresa está num buraco financeiro sem fundo que, em ultima instância custará o emprego de milhares de pessoas. Nesse caso eu – investidor – não estou a apostar no futuro da empresa, mas sim e unicamente no futuro da ação, neste caso, um item altamente intangível e volátil. A crise financeira não foi mais do que isso. Na verdade até foi mais pois os financistas de plantão exerceram toda a sua arte para espremer todos os dólares fictícios possíveis dessa grande máquina com a invenção dos derivados e de uma série de outros mecanismos que o comum dos mortais como eu não entende nem quer entender...
 
E voltamos ao caradelivro. Como eu dizia, a rede social da moda captou algo como 16 bilhões de dólares na sua abertura de capital, salvo erro. Esse valor astronômico é ainda assim bem abaixo das expectativas. Hoje a empresa é avaliada em mais de 100 bilhões de dólares. O que eu acho mais fascinante dessa história é que ainda assim vários “especialistas” se mostram céticos com o(s) modelo(s) de negócio da empresa. Qual é ele? É publicidade? Hoje, a publicidade representa cerca de 80% da receita. É e-commerce? As primeiras experiências têm sido catastróficas e as e-lojas têm abandonado progressivamente o barco. É base de dados de usuário? As promessas de adaptação microscópica da oferta à demanda ainda deixa muito a desejar, sobretudo num universo onde o consumidor, habituado a ser bombardeado por promoções de todo o gênero, sofre de um assustador déficit de atenção. Isso, sem contar com a alta rotatividade da própria base de dados de usuários, é difícil assegurar alguma forma de lealdade ou fidelidade. Ali em cima eu escrevi “avaliada” com muita clareza. A sensação que eu tenho é que antigamente se apostava no potencial valor da empresa. Hoje, num mundo de consumismo desenfreado e de crianças adultas com demasiado açúcar no sangue, se aposta na potencial avaliação. E há uma enorme diferença entre avaliação e valor. É a futilidade dos tempos modernos...

quarta-feira, 16 de maio de 2012

E o microcrédito?

Nos últimos tempos não tenho publicado textos porque infelizmente – e felizmente – tenho estado ocupado com um projeto relacionado com o microcrédito. Todos sabem a importância que o tema tem tido para o atual governo. Entre os diversos programas governamentais (Crescer, PNMPO, etc) e a possível formação de um ministério focado nas microempresas, é senso comum chegar à conclusão que o microcrédito é visto como uma das ferramentas mais eficientes para consolidar a saída da linha da pobreza, de grande parte da população.
 
Eu já conhecia um pouco sobre o assunto graças, essencialmente, à experiência do Professor Muhammad Yunus, no Bangladesh. A experiência do Grameen Bank foi fulcral par ao desenvolvimento do microcrédito para o resto do mundo. Ao pesquisar sobre o assunto fui descobrindo experiências fantásticas espalhadas pelo mundo. Por exemplo, descobri a existência do Kiva, uma plataforma que permite que pessoas emprestem dinheiro para financiar micro projetos/ideias/empreendimentos, em toda a parte do mundo, invés de bancos ou empresas. O modelo é simplérrimo e parece funcionar lindamente. Uma solução simples para um problema complexo. E é um efeito positivo da globalização.
 
Pelo que pude avaliar ao pesquisar sobre o assunto, dois pontos me pareceram essenciais para o sucesso do microcrédito: o uso de grupos solidários, onde as pessoas dependem umas das outras para poder usufruir do empréstimo sem garantias ou colaterais. Aqui entra a importância da reputação, da honra. Quem não tiver boa reputação dificilmente arranja alguém para se tornar solidário da dívida, não é? Nesse sentido acaba por ser um sistema de ganha/ganha, pois quem não tem garantias para apresentar usa o “bom nome” como tal, e o banco também dilui o seu risco pelo grupo solidário. O segundo item de importância é a proximidade. Todos os modelos analisados mostram que quem empresta o dinheiro está bem próximo de quem toma, seja para acompanhar os empreendimentos (uma forma de garantir o retorno), seja com modelos de capacitação dos microempreendedores, seja com assessoramento, etc.
 
Pude verificar que “emprestar para pobre é um bom negócio”, extremamente rentável. Uma das conclusões da experiência do Grameen é que os pobres são extremamente bons pagadores, a inadimplência é baixíssima. Uma das razões da baixa inadimplência é o fato dessa população ser ainda muito avessa à formalidade e bancarização, valorizando muito a honra e o “bom nome na praça”. Ironicamente, são conceitos que tendem a desaparecer á medida que conhecemos e integramos a “máquina”, não é? Isso leva a outra análise: em geral, para o público de baixa renda, os juros baixos são muito menos importantes do que o próprio acesso ao crédito. Os produtos normalmente comercializados têm rotação e margens altas. Aliás, é por isso que muitas vezes existem agiotas atuando como pseudo-bancos comunitários, onde não há presença de bancos ou organizações oficiais. Sob esse pretexto, alguns bancos como o Compartamos, no México ou o próprio Grameen Bank em alguns dos seus produtos, trabalham o microcrédito com juros altíssimos, sendo assim alvo de severas criticas de organizações da sociedade civil.
 
Na semana passada fui a Fortaleza visitar o CrediAmigo, do Banco do Nordeste do Brasil (BNB). O microcrédito deles é operacionalizado em parceria com o Instituto Nordeste Cidadania (INEC). Fora o absoluto sucesso do modelo de negócio em todos os sentidos – geração de credito para população de baixa renda, bancarização parcial, treinamento e capacitação de cerca de 2200 agentes de credito, treinamento e capacitação dos tomadores de crédito, mais de 1 milhão de clientes, etc (acessem o site e vejam os balanços sociais) – o que mais me impressionou foi o entusiasmo das pessoas que trabalham em toda a cadeia produtiva. Mais que o resultado financeiro, que é belíssimo, o que mais parece motivar as pessoas é o efeito que o trabalho delas gera no dia a dia. As mudanças de realidade são visíveis, palpáveis. Muitos dos agentes dizem com orgulho, ser donos de um carro ou de uma moto, estar a estudar, ter ajudado a montar vários micronegócios, e por aí adiante. A viagem me deixou pensativo pois, creio, que foi a primeira vez que vi o setor bancário funcionar numa lógica de ganha/ganha com o seu cliente. Isso é esperançoso, não é?

terça-feira, 13 de março de 2012

O que é Responsabilidade Social Empresarial?

Sempre que me perguntam em que consiste é o meu trabalho, respiro fundo e tento explicar sem parecer pedante. A forma mais simples de explicar é “tento convencer a empresa para qual trabalho a não pensar só em lucro”. Normalmente essa explicação é invariavelmente recebida com um olhar de admiração, seguido por um suspiro profundo e um “uau, boa sorte!”. E essa reação vem bem antes de explicar que a Responsabilidade Social Empresarial (RSE) tenta incentivar as empresas a pensar e se relacionar de forma sistemática e coerente com todos os seus públicos de interesse. As palavras-chave aqui são “sistemática” e “coerente”.
 
Os temas da RSE e Sustentabilidade, depois de um momento de euforia, parecem passar agora por uma espécie de ressaca. Depois do tempo em que o tema era tratado nos departamentos de comunicação e marketing, muitas empresas decidiram criar áreas especificas para operacionalizar as mudanças necessárias. Em conversa com uma amiga demo-nos conta que, infelizmente, muitas vezes a função dessas áreas tem sido cada vez mais deturpada, desviando recursos valiosos – os profissionais que lá trabalham – para projetos que pouco ou nada impactam na mudança da cultura da empresa. E é esse o objetivo de um departamento de RSE: mudança da cultura empresarial. Hoje é bastante comum vermos a área de RSE cuidar da coleta seletiva ou reciclagem, dos dias da mãe/pai/tio/mulher/negro/índio/trabalhador/etc, da manutenção de parte do endomarketing ou comunicação interna, de parte da capacitação etc. Em alguns casos a área de RSE é até confundida com o sindicato da empresa ou mesmo com uma espécie de ouvidoria interna ou ombudsman. Isso é sinal tanto de uma falta de estrutura interna para acolher a mudança, como da falta de foco da própria área. Em muitos casos é sinal de que, nitidamente, a carroça foi colocada na frente dos bois.
 
Já ouço a pergunta que vale 1 milhão: mas se não é a área de RSE que deve cuidar desses assuntos, quem deve? É relativamente simples responder a essa pergunta se pensarmos uma área que trata de RSE e/ou Sustentabilidade como uma área com data limite, com prazo marcado para extinção. Quem trataria dos temas acima citados, se não houvesse a área de RSE? Provavelmente ficariam divididos entre quem cuida de pessoas, de comunicação, de administração etc., não é? O foco de uma célula de RSE ou de Sustentabilidade é e deve ser estratégico, consultivo. Não é uma área operacional. O seu objetivo não é “apagar o fogo”, mas sim e unicamente criar sistemas e estrutura para que “o fogo nunca acenda de novo”. É uma atitude preventiva bem mais do que reativa. Basta olhar com atenção para as 3 ferramentas principais da RSE no Brasil – ISO 26000, Pacto Global e Indicadores Ethos – para concluir que os temas tratados são absolutamente estratégicos e não podem depender de uma área sem suficiente poder executivo. Enquanto a célula de RSE não tiver poder para forçar as mudanças necessárias, ela continuará no seu papel superficialmente cosmético. Então qual é a solução? A minha sensação é que no fundo é relativamente simples. Ou se empodera claramente essas áreas para que elas possam agir diretamente na operação ou sistemas que impactam diretamente a cultura empresarial, ou o tema tem de subir um nível e passa a ser tratado no Conselho de Administração, como demandas imperativas para serem executadas pelo corpo de gestão. Tudo o resto é cosmética e greenwashing. Sem dizer que é uma enorme palhaçada...

quinta-feira, 8 de março de 2012

As desconhecidas que impactaram a minha vida

Como é apropriado, vou falar hoje sobre o Dia Internacional da Mulher. Mas ao pensar no assunto, decidi que queria tentar fazer uma abordagem diferente do tema.

Normalmente, faria um levantamento histórico da razão da existência deste dia, dos avanços obtidos para as mulheres nos últimos séculos, do espaço delas no mundo empresarial em geral, do tratamento do tema na publicidade, do Programa Pró-equidade de gênero e raça, etc, etc. Mas isso tudo, qualquer pessoa “com dois dedos de testa” e um acesso razoável à internet, consegue ter sem muito esforço. Até ajudei um pouco aí.
 
Então, pensei aqui com os meus botões que outro tipo de homenagem poderia prestar ao famoso – e preconceituosamente chamado – “sexo frágil” ou “sexo fraco”. E decidi falar das mulheres desconhecidas que tiveram impacto na minha vida. Desconhecidas para vocês, é claro. ;)
 
Tenho que começar, obviamente, pelo círculo mais próximo, o círculo familiar:
  • Tudo começa com a mãe, não é? Uma mulher inteligente e forte que, claro, complexos de Édipo de lado, serviria de referência para todas as outras mulheres que conheci depois. Ela conseguiu a proeza de ser filha, mãe, profissional e amiga em continentes e culturas diferentes, sem perder um olhar inocente e cândido sobre as pessoas. Se há uma coisa que admiro nela é a capacidade de ver o bem nas pessoas, de extrair e de despertar o que há de melhor nelas. E minha mãe sabe bem o que é ser mulher nessas diferentes culturas. Saiu vitoriosa de cada um destes embates culturais.
  • A minha avó materna também foi presente no nosso crescimento, sempre com aquele típico olhar carinhoso que os avós têm. Estava presente no dia a dia, curando todas as feridas das loucuras que as crianças inventavam para tornar o dia mais interessante lá no fundo da África Ocidental. Não há nada como carinho de avó. O meu filho que o diga, hoje.
  • Depois, há a minha irmã, que sempre foi a mais rebelde, com opiniões próprias, e isso desde criança. Brigávamos o tempo inteiro porque ela queria crescer mais depressa do que a natureza deixava. Hoje, é mãe de um casal de crianças lindas (a terceira está a caminho). Mas continua casmurra como sempre, porém, me desdobro muito para dar conselhos a ela. Embora minha irmã e eu vivamos, hoje, em continentes diferentes, acho que em nossa vida adulta, nunca estivemos tão próximos.
  • Também há a minha ex-esposa, uma mulher brilhante, com uma sensibilidade à flor da pele e que hoje trabalha, precisamente, com o tema de equidade de gênero. O impacto dela em minha vida foi obviamente gigantesco. Aprendi com ela a ser transparente. Pode parecer pouco, mas não é, acreditem. O fato de hoje eu trabalhar com temas sociais também foi resultado de um estímulo dela.
Saindo do círculo familiar:
  • Lembro-me de uma empregada que tivemos quando ainda morávamos em Bissau, capital de Guiné-Bissau. A mulher tinha 1,40 m (se tanto) e fazia de tudo para que não nos faltasse nada. Fazia parte da família. Com ela, aprendi que empatia nada tinha a ver com idade, cultura, cor de pele etc. Nosso maior prazer era ouvir as historias de infância dela.
  • Como todo rapaz, tive a minha primeira paixão. E foi por uma professora de matemática. Ela despertou em mim o prazer das exatas e o pragmatismo dos números. Quis ser cientista por causa dela. Infelizmente, outra professora de matemática destruiu paulatinamente esse desejo e meu sonho acabou no penúltimo ano do secundário. Não podia ser tudo um sonho, não é?
  • A diretora do meu liceu, certa vez, me disse uma frase que me lembro até hoje: nada é gratuito. Ela me falou isso num dia em quem me expulsava do liceu por algo que eu tinha feito. Sim, foi castigo merecido. ;)
  • Profissionalmente, também cruzei com mulheres admiráveis. Algumas delas trabalham por perto até hoje. Muitas dessas mulheres começaram a fazer parte da minha vida como meras colegas de trabalho para, depois, se tornarem amigas próximas. Em alguns casos – poucos, felizmente – encontrei mulheres que tentavam ser mais homens que os homens. Tive uma chefe assim quando trabalhei com supermercados. Detestei cada minuto do trabalho com ela. Mas, mesmo assim, reconhecia o esforço que ela tinha que fazer para ser vista como igual aos colegas dela, que eram todos homens. Não devia ser fácil para ela. Porém, me demiti do cargo por causa dela, é um fato.
Num mundo masculinizado como o nosso, a verdade é que tendemos a prestar pouca atenção à quantidade gigantesca de mulheres que impactam as nossas vidas diariamente.
 
E para vocês? Quais são as heroínas desconhecidas? Contem suas histórias!

quinta-feira, 1 de março de 2012

A religião e o Estado laico

Na festa de final de ano da escola pública do meu filho, no fim do ano passado, fomos surpreendidos, após as atuações dos alunos, com um canto religioso. Foi como se estivéssemos numa igreja. Mas não estávamos. Estávamos numa instituição pública de ensino, supostamente laica.

Pensei que talvez também fossem cantar algo para as outras religiões, o que obviamente não aconteceu. Coincidentemente, estava à minha frente uma mãe muçulmana, tirando fotos dos filhos. Notei o desconforto de alguns pais – minoria à qual eu pertencia – e tentei imaginar como aquela mãe devia se sentir.

Esperei pelo fim da celebração e fui conversar com a diretora da escola, que, curiosamente, era a mestre de cerimônia do evento, inclusive do cântico final. Disse-lhe que tinha me sentido incomodado por duas razões. A primeira era a presença da religião numa escola pública e a segunda era a unilateralidade religiosa no evento.

Para o segundo argumento, ela tentou me explicar que eles tratavam o assunto de forma bastante aberta e que todas as religiões eram bem-vindas na escola, ao que retorqui que não era bem assim, já que a realidade parecia ser outra. Não tínhamos ouvido nenhum canto muçulmano, hindu, espírita, budista, umbandista, judaico etc. Sobre o meu primeiro comentário, nem chegamos a tocar no assunto.

Como isso aconteceu no final do ano, ela me convidou para discutir o assunto este ano, assim que a escola voltasse a funcionar. As aulas recomeçaram esta semana, já cruzei com a diretora na escola e ela ainda não me falou de quando teremos a conversa.

O debate religioso nas sociedades modernas é muito complexo. Os dois “campos” não são minimamente abertos ao diálogo, ao meio termo, ao consenso. A religião, aliás, é um daqueles três temas mais difíceis de serem discutidos, mesmo entre pessoas civilizadas, ao lado da política e do futebol.

Cresci entre duas avós religiosas, uma católica e a outra protestante. Ia à missa aos domingos com meus irmãos – embora eu mesmo não entendesse muito bem porque precisava de um padre para falar com Deus. Fomos batizados e fizemos catequese. Fazia essas coisas porque nossas avós ou uma tia nos levavam à igreja. Os meus pais nunca nos estimularam a sermos católicos ou protestantes. Hoje, algumas das crianças que pertenciam a esse círculo são religiosas, outras não.

Da mesma forma, hoje não incentivo o meu filho de 10 anos a ser católico, protestante, budista, muçulmano, hindu etc. Mas também não o incentivo a ser agnóstico ou ateu. Quando ele pergunta sobre o assunto, tento lhe explicar com a melhor das minhas habilidades o que representa cada um, quais são as origens, deveres, responsabilidades de cada possibilidade. E espero que, com o tempo, ele faça a escolha dele, da mesma forma que fiz a minha.

A fé do meu filho deve ser uma escolha totalmente dele. As instituições do Estado, que servem a todos de forma equitativa e igualitária, não devem interferir nesse processo. Ele mesmo decidirá, em seu tempo, se quer ter ou não uma religião. Tem que ser uma escolha dele, pois quando for questionado – e todos sabemos que o será, seja qual for a sua escolha –, só ele poderá arranjar os argumentos para alicerçar a sua defesa.