sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Perspectivas...

Eu sei, eu sei. Há meses que não nasce nada aqui. As teias de aranha se instalaram, sem dúvida. Mas não morremos. Apenas mudamos. A explicação básica do silencio é que deixei de trabalhar diretamente com estes temas. Até hoje - e já passaram uns 6 meses, salvo erro - não sei se é "felizmente" ou "infelizmente". Sempre pensei que a máquina só poderia ser mudada partindo de dentro. Contradizendo diretamente esse pensamento, durante 2 anos tentei enfrentá-la de frente. Resultado: a minha equipe e eu transformamo-nos num magnífico bibelot, um enfeite, num prêmio de greenwashing que é exibido em cima da prateleira da sala de reuniões da empresa. Cansei. Voltei para a área de negócios, onde eventualmente consigo imprimir, influenciar, provocar a mudança de forma menos espetacular, mais insidiosa, mas claramente mais duradoura. Pelo menos é como funciona o discurso de autoconvencimento.

Mas chega de explicações. Bola para a frente. A luta continua...

Até eu - que não lê jornais, não liga TV - já vi o reboliço provocado pela visita ao Brasil de uma certa blogueira cubana. A minha fonte de atualidade tem sido simplesmente o "mural" do caradelivro. Aproveito a complacência dos amigos altamente atualizados (e atuantes, para muitos) para manter o dedo no pulso do mundo). Assim acompanhei, não necessariamente nessa ordem:
  • A tentativa de redução da maioridade penal, visto como a solução para todos os males. Minha opinião? Que mais uma vez olhamos para o problema pela perspectiva errada. Then again...a minha perspectiva também pode estar errada...
  • A mediática volta de Renan, numa magnifica exibição/demonstração de maquiavelismo político (sem julgamento, gente. Sério, é apenas uma constatação).
  • A crise em Portugal e na Europa, em geral, que parece ser quase literalmente um poço sem fundo. As soluções de austeridade parecem não surtir outro efeito senão aumentar o descontentamento de um povo que parece estranhamente dócil ou anestesiado e exausto.
  • A renuncia do papa bento-não-sei-das-quantas e possível ascensão ao poder do primeiro papa negro, homofóbico e defensor da pena de morte. Aqui entre nós, espero que este ganhe. De verdade. Sem absolutamente nenhum cinismo ou ironia. Ele tem o meu voto.
  • A queda abismal de um herói na pessoa do corredor Oscar Pistorius que matou a namorada no dia de São Valentim. Até hoje não percebi se afinal foi acidente ou crime passional mesmo.
  • Etc...
A última notícia - razão que me tirou do silêncio - foi a visita ao Brasil da blogueira cubana Yoani Sánchez, de quem nunca tinha ouvido falar. E qual é discussão desta vez? Uns acham que ela é uma mentirosa patológica financiada pela inteligencia dissidente cubana em conivência estreita com os corredores do poder estadunidenses. Outros acham que ela é o arauto heroico dos filhos renegados de Castro e Guevara. Então uns apedrejam e outros acolhem e protegem. É uma situação que me lembra muito esta imagem sobre a guerra entre crentes e ateus. Sem conhecer a tal blogueira - e sem paciência para investigar mais - eu diria que provavelmente a "verdade" há de estar algures no meio do caminho entre o fanatismo dos dois lados do muro.

Coerência? Para quê?

Don't get me wrong. O meu coração sociopolítico está também mais para o lado esquerdo. Daí a acreditar cegamente em contos de fada, vai um mundo.

O regime cubano é perfeito? Certamente que não. Lembro-me de ter ficado chocado de ouvir o Che dizer, em 64, perante a ONU
“Fusilamientos, si. Hemos fusilado. Fusilamos y seguiremos fusilando mientras sea necesario. Nuestra lucha es uma lucha a muerte”
Já escrevi neste blog, o que penso sobre a corrupção do poder. Há ou houve violações de liberdades básicas em Cuba, não tenho dúvida. Eu disse algures que o comunismo - como o capitalismo, aliás - são conceitos espetaculares. Conceitualmente. Na prática sofrem do mesmo defeito: não deram a devida atenção ao ego do homem. Simples assim.

Mas, continuando o raciocínio, certamente muita coisa em Cuba não é perfeita. Certamente que, mesmo que ela tenha um olhar parcial sobre o país dela, a blogueira diz ou disse muitas verdades, apresentou para o mundo muitas realidade que o poder local não gostaria de ver divulgadas. É de conhecimento de todas as pessoas minimamente informadas de que o regime de Cuba nunca lidou particularmente bem com a oposição. Podem sempre usar a estratégia da avestruz, se quiserem. Não tenho a mínima dúvida sobre isso. E não vejo absolutamente nenhum problema com o fato da Yoani Sánchez divulgar e/ou apontar isso. Desde que ela não invente. Não é preciso ser um gênio para perceber e aceitar, que sem oposição não existe democracia. Não é como se eu estivesse a inventar a pólvora ao dizer isso. Posso não concordar com o que ela disse, mas daí a vilipendiá-la como se ela fosse a última responsável pelo genocídio do Ruanda? Haja bom-senso. Não me recordo quem, mas alguma figura disse um dia algo como "não concordo com o que dizes, mas lutarei até á morte pelo direito de o dizeres".

Por outro lado, mesmo longe de ser perfeito, um outro ponto de vista sobre Cuba foi filmado pelo Michel Moore no documentário "Sicko". Ali, a avaliação é que, com muito sofrimento, o regime garante uma série de benefícios para todas as classes sociais do país - saúde e infraestrutura, essencialmente - de forma justa e igualitária, algo que não existe nos estados unidos.

Duas face da mesma moeda, dois pontos de vista sobre o mesmo assunto, dois prismas, duas perspectivas de duas pessoas inteligentes - parto dessa premissa. Qual é a chance de só uma delas ter razão? No mínimo têm em comum uma visão panfletária do planeta. Muitos vão escolher campos, mas tenho sérias dúvidas se esse é o caminho...

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Fluxos migratórios do novo mundo

Faz tempo, não é? Não, o blog não morreu (espero). Apenas uma vítima colateral da minha desorganização temporal ;)

Mas, vamos lá!

No outro dia fui à “feira dos importados”, aqui em Brasília. Já não ia lá há muito tempo e encontrei uma nova realidade. Venho notando com o tempo que os “mercados populares” são um bom barômetro dos fluxos migratórios de um país. Pelo menos os “entrantes”. Quando cheguei a Brasília, há quase 7 anos atrás, havia um uma predominância de lojas mantidas por brasileiros de diversas regiões. O outro pedaço era interessantemente ocupado pelo que me pareciam ser libaneses ou tunisinos. Ou talvez turcos. Estes, normalmente eram donos das lojas de informática. Um pedaço menor era chinês. Bem menor.

Desta vez encontrei um cenário totalmente diferente. Chineses por todo o lado. Os norte-africanos parecem ter desaparecido e os brasileiros resistem bravamente.

Lembrei-me de Lisboa, da avenida almirante Reis á praça do Martim Moniz. Quando eu morava lá, as lojas da avenida pertenciam a portugueses e indianos, enquanto os dois “shoppings” estava majoritariamente ocupados pelas ex-colonias africanas – Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Cabo Verde, essencialmente. Hoje esse panorama também mudou muito. Durante um momento, a imigração dos países eslavos tentou entrar nesse mercado, mas a barreira da língua foi demasiado forte e eles foram ocupar espaço na construção civil (para os homens) e trabalhos domésticos (para as mulheres). Durante os anos que passei lá vi uma mudança clara na sociedade que se compunha, com base nesse choque cultural. Infelizmente, os emigrantes que chegavam em busca de melhores condições de vida nem sempre tinham dinheiro sequer para comprar comida. Então, não era raro vê-los à porta dos supermercados e restaurantes na hora do encerramento, á espera do momento que os restos – ainda perfeitamente comestíveis – eram jogados no lixo, para ver se aproveitavam alguma coisa. No início, eram os africanos que esperavam. Depois de uns anos, os africanos faziam compras e pagavam no caixa, enquanto os emigrantes dos países do leste europeu – russos, bielo-russos, eslovacos, romenos – esperavam à porta. Depois, os eslovacos aprenderam a língua e, diferentemente dos africanos, puderam se identificar para o mercado como médicos, economistas, sociólogos e cientistas que eram. Foram se inserindo pouco a pouco na sociedade até serem substituídos à porta dos restaurantes pelos recém-chegados chineses e coreanos.

O meu passeio pela “feira dos importados” me levou de volta ao mesmo pensamento que eu tinha formulado com a imigração asiática em Lisboa: a falta de inserção é impressionante. E sempre me pergunto porquê. Na feira, como em Lisboa, eles mal falam português e no entanto dominam completamente a praça. As lojas de roupas, óculos, bijuteria e perfumaria barata, relógios e eletrônicos são todas deles.
 
Detesto esse “deles” porque me distancia involuntariamente. É tão fácil cair na armadilha do “eles” e “nós”, facilitado pelo incapacidade preconceituosa em distingui-los uns dos outros (imagino que eles também tenham a maior das dificuldades em distinguir um português de um espanhol, um italiano de um francês, um brasileiro de um argentino,etc.
 
A verdade é que me senti triste por eles ao ponto de fugir da feira sem resolver o problema que me tinha levado lá.
 
Para entender de onde veio a minha tristeza, aconselho o documentário abaixo, intitulado “Last train home”. O documentário toca unicamente no tema do fluxo migratório no novo ano chinês. Transponham isso à escala planetária.
A solidão deve ser surreal, talvez a razão de eles formarem grupos tão fechados, tão herméticos e coesos, onde quer que estejam. Falam pouco com os locais, as crianças brincam entre elas – pelo menos até entrarem na escola, a comida também é de “lá” ou o mais de “lá” que os ingredientes daqui permitiram. E têm certamente todos os problemas que enfrentamos no dia a dia, sejam eles com o preço da gasolina, como com a educação das crianças, inserção social, sexualidade,amor, etc. Tudo.
 
Enfim, uma situação triste causada mais uma vez pela globalização. O trabalho escravo não desapareceu. Apenas tomou nova cara, se deslocou, se pintou com outras cores. E são quase sempre os mesmo que pagam a conta. Infelizmente. Apenas um desabafo...

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Carros, carros, carros e mais carros...

Na semana passada eu fui buscar a minha mãe no aeroporto. Ela esteve fora durante mais de um mês e durante esse tempo eu estava com o carro dela. Fui deixá-la em casa no meio da tarde e depois, como tinha de voltar para o escritório, decidi deixar logo o carro com ela e voltar de ônibus. E foi mais um daqueles momentos que confirmam que o carro é mais um objeto que não deveria fazer falta nas nossas vidas. Eu vinha num ônibus que foi ficando progressivamente cheio, mas isso não me incomodou. Na realidade eu me sinto bem nos transportes públicos, é o que faz sentido para mim. Eu até gosto de dirigir, mas preferia dirigir apenas para viajar de férias ou ir fazer compras, coisas assim. E a rede de transporte público em Brasília é péssima. No “plano” – centro desta cidade estranha – há muitas linhas em funcionamento, mas a maioria é composta de carros velhos e descuidados. São raros os ônibus novos, confortáveis e em bom estado. Da mesma forma, a linha de metrô só serve um lado da cidade, e ainda assim de forma precária, pois demoram muito, estão sempre abarrotados durante o horário de ponta, encerram cedo durante o fim de semana, etc. E isso parece não ser uma exclusividade de Brasília. Já estive de férias em São Paulo e no Rio e tive a mesmíssima impressão dos ônibus de lá. A rede de metrô de São Paulo parece uma manta de retalhos com linhas desiguais e conexões e prolongamentos estranhos. O metrô do Rio me pareceu novo e confortabilíssimo.
 
Absorto nos meus pensamentos enquanto estava no ônibus, lembrei-me do quanto eu gostava de viver numa cidade onde eu não precisasse do carro para nada. É um sonho. E das poucas cidades que conheci acho que apenas Paris me ofereceu isso. A rede de metrô de lá é surreal. Há 20 anos atrás já existiam mais de 20 linhas que podiam levar qualquer pessoa de um ponto a outro da cidade em cerca de 30 minutos. Nem tudo era perfeito, claro. A proliferação de linhas transformou a cidade num queijo suíço, além de ser um desafio para qualquer pessoa tentar se orientar lá. Mas no computo geral, podia viver sem carro. Em Lisboa também foi um pouco assim, a uma escala bem menor. Além de andar muito mais a pé – coisa que gosto muito – eu usava muito mais o ônibus em Lisboa e vivi anos sem carro. Morávamos no centro da cidade e lembro-me da rotina de ir levar o filhote à escola e seguir para o trabalho, tudo a pé. Em Brasília, decidi morar no plano precisamente para não precisar de carro. Claro que já sonhei com um carro bonito, confortável, automático, com bom som – adoro música – ar condicionado, computador de bordo, sensor de estacionamento e todas as traquitanas que o dinheiro pode comprar. Mas felizmente esse desejo nunca foi forte o suficiente para eu procurar realizá-lo. Sempre passou com o tempo. Hoje tenho um carro emprestado – do meu irmão que se mudou – e ando nele por preguiça assumida. Ainda vou arranjar uma forma de o vender, mandar o dinheiro para ele e voltar a andar a pé e de bicicleta (já não ando de bicicleta há mais de 6 meses...).
 
E assim me pergunto hoje, porque raio é assim tão difícil desenvolver uma rede razoável de transportes públicos? A única forma de fazer as pessoas pararem de usar os carros, pararem de comprar carros. É assustadora a quantidade de carros que se vendem por dia. Na TV do elevador aqui do prédio onde trabalho tem aparecido uma publicidade recorrente de uma concessionária festejando o marco de mais de 5 mil carros vendidos no primeiro semestre deste ano, só em Brasília! E é só uma concessionária! Eu tremo cada vez que vejo esse numero que eles vendem como se fosse a melhor notícia do mundo desde a invenção do pente para carecas. Eu não acredito na famosa “carona solidária”. Não acredito mesmo. Pessoas aceitando partilhar algo seu com desconhecidos? No way, Jose! Talvez em outra evolução do ser humano. Nesta vida onde somos seres egoístas, com sentimento de posse – ensinada às crianças desde pequenas (as crianças não dão, elas emprestam...) – não creio que o famoso car-pooling seja solução. Os transportes públicos, por outro lado, não são de ninguém e são de todos ao mesmo tempo. Não tenho números concretos para suportar a minha teoria, mas tenho a sensação que a grande maioria das pessoas optariam por usar transportes públicos se estes fossem confortáveis, limpos e rápidos.
 
Então repito a pergunta: porque é assim tão difícil? Falta de dinheiro nos orçamentos públicos? Naahh, não pode ser. O orçamento de infraestrutura é bastante expressivo e faz parte dos 3 mais importantes gastos dos governos, em geral, junto com saúde e defesa, salvo erro (nota á parte: pena que educação não faz parte desse grupo). Então qual é a razão? Vontade política? Não pode ser. Acabou agora a Rio +20 que foi uma suprema decepção. Mas todos concordam – creio – que andamos a destruir o planeta. Não me venham com aquela conversa de que é “conversa de ecochatos”. São fatos. Os recurso do planeta não suportarão o nosso padrão por muito mais tempo. A única dúvida é precisamente essa: quanto tempo. 20 anos? 100 anos? Não faço ideia. Mas que pelo caminhar da carruagem vai tudo pró brejo, vai sim. Deal with it! Que outra razão pode existir? Falta de foco? Visão mercantilista a curto prazo? Talvez. É verdade que vejo todo o tipo de incentivos à baixa de impostos e taxas para compra de carros. Paralelamente a isso os combustíveis são supertaxados – bela fonte de receita – e o álcool (para aqueles que como eu colocam álcool no carro, independentemente de ser “pior para a carteira”) é caríssimo. Ou seja, o governo incentiva a venda de carros e ganha um dinheirão com o combustível necessário para estes andarem. Hmm, ok. Não sabia que os governos usavam o long tail! Nem sequer e inovador, pois os dealers de drogas já fazem isso há algum tempo. Entendo. Não aceito nem compartilho, mas entendo a lógica.
 
Então o que nos resta? No mundo atual, incentivar o modelo de transporte público em massa. Sim, façam aviões que possam levar ás quinhentas e mil pessoas ao mesmo tempo, barcos que levem aldeias inteiras mar afora. Pelo menos sinto que os danos serão “menos piores”. Paralelamente a isso, espero que encontrem uma forma de usar energias alternativas renováveis e não agressivas para o meio ambiente, para alimentar essas máquinas todas. Por mim, poderiam até colocar os passageiros todos a pedalar para ir de um lado para outro. Seria mais barato, ecológico e certamente um solução para o surto de obesidade mórbida das últimas décadas!!
 
Meu sonho? De verdade? Que alguém descubra finalmente o segredo da teleportação. Sério!

terça-feira, 26 de junho de 2012

Qual é o segredo do engajamento?

Há uns anos que escrevo neste blog – não parece, não é? Quando comecei, eu tinha identificado 3 temas que sabia serem os mais difíceis de tratar: política, religião e futebol. Acabei por falar um pouco mais sobre os dois primeiros. O terceiro passou batido ou foi apenas superficialmente abordado porque, francamente, estou um pouco “nem aí”.

Mas, no meio desses vários textos, de alguma forma eu sempre tentei falar de coisas que pudessem gerar alguma discussão saudável, por mais espinhoso que fosse o tema. E um grande mistério é tentar entender o que provoca o engajamento das pessoas, o que as faz dar aquele passo adicional que separa os meros leitores/espectadores dos comentadores/contribuintes. E depois entre comentadores/contribuintes e atores/participantes. Porque os temas aqui abordados acabam por ter como único intuito de provocar alguma mudança, seja ela qual for (espera-se que seja positiva, pelo menos).

Embora não haja muito segredo – para gerar interação é melhor tratar de temas polêmicos – é difícil acertar na escolha do tema polêmico. Do ponto de vista de quem escreve, são todos temas polêmicos, não é? Afinal de contas, se ele decidiu escrever sobre o assunto é porque acha suficientemente pertinente, não é? Mas do outro lado do computador, não é bem assim.

O texto que suscitou mais discussão até agora – e de longe – foi o texto sobre o laicismo no ensino público. Diretamente ou indiretamente, foi o texto que gerou mais comentários, discussões, brigas – em alguns círculos, gargalhadas – em outros círculos, sugestões, etc.

O outro tema que gerou discussão foi a política. Lembro-me que o texto sobre a publicidade comparativa em campanhas políticas gerou alguma discussão.

Tanto no caso da religião com o no da política, fico sempre fascinado pelo grau de envolvimento e fervor das pessoas – contra e a favor. Os dois “lados” não poupam energia para defender o seu ponto de vista, para tentar convencer o “inimigo”. No caso da religião a postura é compreensivelmente mais “orgânica” por se tratar de uma questão de fé. Como sou confessadamente cínico, tendo sorrir esperançadamente, pensando no dia em que essa energia será gasta na resolução dos problemas mais urgentes da humanidade – que, convenhamos pragmaticamente, não são religiosos nem políticos e muito menos, futebolísticos. E se a palavra “humanidade” vos parecer muito distante (acontece), basta olhar para o nosso redor para encontrar algum “problema” bem perto, algo tangível como os sem-abrigo, as crianças que trabalham nos semáforos, a educação, a pobreza, a falta de civismo e de ética, o consumismo, a falta de inclusão, o sexismo/racismo/nacionalismo e outros ismos, o meio ambiente e os impactos climáticos da sociedade de consumo, as energias renováveis, a tecnologia que vai salvar o mundo, etc (todos temas que foram abordados aqui em algum momento). Porque esses temas não geram tanto engajamento quanto a religião, a política ou o futebol?

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Comunicação e marketing criam necessidades?

Num final de semana de almoço de família + amigos, acabamos por nos envolver numa discussão (saudável, sem briga. Sim é possível J) sobre essa frase que eu tanto ouvi e ouço: o marketing/comunicação é capaz de criar necessidades nos consumidores. Opinião pessoal: é uma das maiores falácias que os marqueteiros deste planeta conseguiram plantar na cabeça dos demais mortais. E olhem lá que eu trabalho com diversas disciplinas de comunicação e marketing há uns 15 anos, mais ou menos. Tudo empírico, pois não é a minha formação.

Então porque é uma falácia? Não quero me apegar ao lado semântico/fundamentalista da palavra necessidade pois não é disso que se trata. Apenas gosto que as coisas sejam claras. Que o marketing e a comunicação podem influenciar comportamentos e padrões de consumo, não tenho a mínima dúvida. Mas existe uma diferença gigantesca entre criar necessidades e influenciar comportamentos.

Dizem que o exemplo sempre empobrece, mas às vezes é a melhor forma de explicar um conceito: um careca como eu nunca precisará de um pente. Esse é um fato. Não existe marketing ou comunicação que me convença disso. Mas até falando contra mim, posso até imaginar que me deixe convencer por alguma publicidade que o pente X-21B é “O PENTE” que vai resolver os meus problemas (irão certamente apelar para algum sentimento de baixa autoestima causado pela falta de cabelo). Mas rapidamente vou “usar o tal pente” e descobrir que...afinal, o jovem aqui continua careca e, consequentemente, sem necessidade nenhuma de um pente. Agora, o que pode acontecer é que a minha do pente X-21B seja a manifestação latente de outra necessidade: ter a careca coberta de cabelos. Nesse caso a empresa poderia me oferecer outros produtos – loções capilares, perucas, topetes, etc – e aí, somente aí, eu precisaria de um pente. Ou seja, não se criam necessidades. Detectam-se necessidades! O marketing/comunicação mais eficiente é aquele que melhor estuda – e consequentemente, conhece – o potencial cliente, para melhor satisfazer as suas necessidades (evidentes ou latentes) e assim influenciar o seu comportamento. E saliento que não reduzo necessidades a consumo de tangíveis, ok? Todos os dias “compramos” produtos, mas também compramos ideias, conceitos, posicionamentos políticos e sociais. A lógica é absolutamente a mesma para qualquer um desses campos.

No fim do dia, os marqueteiros usam e abusam – infelizmente, na minha opinião – dessa fábula, porque sabem que enquanto os seus clientes acreditarem, eles terão trabalho. Eu, inclusive! Simples assim.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

As corporações, a especulação na bolsa e o caradelivro

16 bilhões de dólares captados na abertura de capital do caradelivro (sim, teimo em chamar aquela rede assim...). Mas já vamos voltar a esse assunto.

Antes disso vou falar das corporações. Ou empresas. Ou ainda melhor, das pessoas jurídicas. O termo em si é fascinante e parte de um único pressuposto: dotar as empresas de personalidade humana, fazendo assim com que elas tenham acesso aos mesmo direitos que as pessoas físicas – não poder ser privada de vida, liberdade e propriedade, sem alguns processos/passos que garanta justiça do julgamento. Um pouco estranha a comparação entre pessoas e empresas, para não dizer injusta, mas adiante. Fascinante também é que nos EUA essa coisa da “incorporação” foi um aproveitamento de uma emenda da constituição - a 14ª - destinada a garantir cidadania aos negros. De garantir liberdade e direitos a ex-escravos, para proteção de empresas é um salto de loucos, não?

E desde quando uma empresa é um corpo? A vantagem dessa belíssima jogada é que as empresas é que “pagam” quando seus dirigentes – que são pessoas, essas realmente donas de corpos de carne e osso – são incompetentes ou desonestos. E quando digo que “as empresas é que pagam” é um belo eufemismo. Quando uma empresa fecha ou sofre um downsizing, outros corpos são despedidos. Os corpos dos ex-dirigentes normalmente se mantêm intactos...quando não recebem bônus gigantescos. Catch my drift?

Continuando.

Depois disso inventaram que a corporação podia ser dividida em partes infinitesimais e vendida para quem acreditasse na sua capacidade de gerar riqueza. Até aí não vejo nada de errado. O funcionamento me pareceu suficientemente simples: se eu acredito na empresa A, posso comprar ações dela e, quando no final do ano ela apresentar os seus resultados – que espero que sejam positivos – parte desse lucro vem para o meu bolso. É justo, pois eu terei dado o meu dinheiro para ajudar a alavancar esse resultado. É a recompensa que eu – investidor – tenho por ter apostado no futuro da empresa. E esse resultado, esse desenvolvimento é tangível. Ele se manifesta com criação de empregos, riqueza, aumento de consumo, mais investimento em pesquisa e desenvolvimento de novos e melhores produtos, etc, etc.

Onde a porca torce o rabo é quando o crescimento da empresa não entra na valoração da ação, quando o preço da ação apenas sobre ou desce pela simples lógica de mercado que diz que quando a demanda é alta e o produto é raro, o preço sobe. Nesse caso o produto é a própria ação e não o que a empresa faz ou a sua solidez econômica. Ou seja, em absoluto, a ação de uma empresa pode subir mesmo se a empresa está num buraco financeiro sem fundo que, em ultima instância custará o emprego de milhares de pessoas. Nesse caso eu – investidor – não estou a apostar no futuro da empresa, mas sim e unicamente no futuro da ação, neste caso, um item altamente intangível e volátil. A crise financeira não foi mais do que isso. Na verdade até foi mais pois os financistas de plantão exerceram toda a sua arte para espremer todos os dólares fictícios possíveis dessa grande máquina com a invenção dos derivados e de uma série de outros mecanismos que o comum dos mortais como eu não entende nem quer entender...
 
E voltamos ao caradelivro. Como eu dizia, a rede social da moda captou algo como 16 bilhões de dólares na sua abertura de capital, salvo erro. Esse valor astronômico é ainda assim bem abaixo das expectativas. Hoje a empresa é avaliada em mais de 100 bilhões de dólares. O que eu acho mais fascinante dessa história é que ainda assim vários “especialistas” se mostram céticos com o(s) modelo(s) de negócio da empresa. Qual é ele? É publicidade? Hoje, a publicidade representa cerca de 80% da receita. É e-commerce? As primeiras experiências têm sido catastróficas e as e-lojas têm abandonado progressivamente o barco. É base de dados de usuário? As promessas de adaptação microscópica da oferta à demanda ainda deixa muito a desejar, sobretudo num universo onde o consumidor, habituado a ser bombardeado por promoções de todo o gênero, sofre de um assustador déficit de atenção. Isso, sem contar com a alta rotatividade da própria base de dados de usuários, é difícil assegurar alguma forma de lealdade ou fidelidade. Ali em cima eu escrevi “avaliada” com muita clareza. A sensação que eu tenho é que antigamente se apostava no potencial valor da empresa. Hoje, num mundo de consumismo desenfreado e de crianças adultas com demasiado açúcar no sangue, se aposta na potencial avaliação. E há uma enorme diferença entre avaliação e valor. É a futilidade dos tempos modernos...

quarta-feira, 16 de maio de 2012

E o microcrédito?

Nos últimos tempos não tenho publicado textos porque infelizmente – e felizmente – tenho estado ocupado com um projeto relacionado com o microcrédito. Todos sabem a importância que o tema tem tido para o atual governo. Entre os diversos programas governamentais (Crescer, PNMPO, etc) e a possível formação de um ministério focado nas microempresas, é senso comum chegar à conclusão que o microcrédito é visto como uma das ferramentas mais eficientes para consolidar a saída da linha da pobreza, de grande parte da população.
 
Eu já conhecia um pouco sobre o assunto graças, essencialmente, à experiência do Professor Muhammad Yunus, no Bangladesh. A experiência do Grameen Bank foi fulcral par ao desenvolvimento do microcrédito para o resto do mundo. Ao pesquisar sobre o assunto fui descobrindo experiências fantásticas espalhadas pelo mundo. Por exemplo, descobri a existência do Kiva, uma plataforma que permite que pessoas emprestem dinheiro para financiar micro projetos/ideias/empreendimentos, em toda a parte do mundo, invés de bancos ou empresas. O modelo é simplérrimo e parece funcionar lindamente. Uma solução simples para um problema complexo. E é um efeito positivo da globalização.
 
Pelo que pude avaliar ao pesquisar sobre o assunto, dois pontos me pareceram essenciais para o sucesso do microcrédito: o uso de grupos solidários, onde as pessoas dependem umas das outras para poder usufruir do empréstimo sem garantias ou colaterais. Aqui entra a importância da reputação, da honra. Quem não tiver boa reputação dificilmente arranja alguém para se tornar solidário da dívida, não é? Nesse sentido acaba por ser um sistema de ganha/ganha, pois quem não tem garantias para apresentar usa o “bom nome” como tal, e o banco também dilui o seu risco pelo grupo solidário. O segundo item de importância é a proximidade. Todos os modelos analisados mostram que quem empresta o dinheiro está bem próximo de quem toma, seja para acompanhar os empreendimentos (uma forma de garantir o retorno), seja com modelos de capacitação dos microempreendedores, seja com assessoramento, etc.
 
Pude verificar que “emprestar para pobre é um bom negócio”, extremamente rentável. Uma das conclusões da experiência do Grameen é que os pobres são extremamente bons pagadores, a inadimplência é baixíssima. Uma das razões da baixa inadimplência é o fato dessa população ser ainda muito avessa à formalidade e bancarização, valorizando muito a honra e o “bom nome na praça”. Ironicamente, são conceitos que tendem a desaparecer á medida que conhecemos e integramos a “máquina”, não é? Isso leva a outra análise: em geral, para o público de baixa renda, os juros baixos são muito menos importantes do que o próprio acesso ao crédito. Os produtos normalmente comercializados têm rotação e margens altas. Aliás, é por isso que muitas vezes existem agiotas atuando como pseudo-bancos comunitários, onde não há presença de bancos ou organizações oficiais. Sob esse pretexto, alguns bancos como o Compartamos, no México ou o próprio Grameen Bank em alguns dos seus produtos, trabalham o microcrédito com juros altíssimos, sendo assim alvo de severas criticas de organizações da sociedade civil.
 
Na semana passada fui a Fortaleza visitar o CrediAmigo, do Banco do Nordeste do Brasil (BNB). O microcrédito deles é operacionalizado em parceria com o Instituto Nordeste Cidadania (INEC). Fora o absoluto sucesso do modelo de negócio em todos os sentidos – geração de credito para população de baixa renda, bancarização parcial, treinamento e capacitação de cerca de 2200 agentes de credito, treinamento e capacitação dos tomadores de crédito, mais de 1 milhão de clientes, etc (acessem o site e vejam os balanços sociais) – o que mais me impressionou foi o entusiasmo das pessoas que trabalham em toda a cadeia produtiva. Mais que o resultado financeiro, que é belíssimo, o que mais parece motivar as pessoas é o efeito que o trabalho delas gera no dia a dia. As mudanças de realidade são visíveis, palpáveis. Muitos dos agentes dizem com orgulho, ser donos de um carro ou de uma moto, estar a estudar, ter ajudado a montar vários micronegócios, e por aí adiante. A viagem me deixou pensativo pois, creio, que foi a primeira vez que vi o setor bancário funcionar numa lógica de ganha/ganha com o seu cliente. Isso é esperançoso, não é?